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quarta-feira, 23 de maio de 2018

O Anel




Patrícia Maia Noronha

Reconheci-te imediatamente por causa do anel, Leonor. Tinha acabado de vestir a farda quando o doutor me chamou. «Enfermeira Marlene», disse ele, encaminhando-me para a tua cama, «muita atenção com esta paciente, vítima de acidente rodoviário com traumatismos múltiplos». Depois disso, a voz dele transformou-se num eco longínquo.

Fui acenando que sim, competente, mas só o anel, isso sim, só isso me importava. O anel antiquíssimo que a tua avó te ofereceu, horas antes de morrer, e que passaste a usar, desde esse dia, com um carinho insuportável. «É lindo não é?», perguntaste-me, a meio da aula de físico-química. Esticavas a mão pequenina na minha direção.

O brilho da pedrinha minúscula feria-me os olhos. Escondi as minhas mãos, gordas e avermelhadas. Quando cheguei a casa, pedi à minha mãe umas luvas de plástico para usar quando lavava a loiça e o chão e a casa de banho e a cozinha. Para usar sempre que lavava. A minha mãe ameaçou um estalo, de braço no ar. «Julgas que és alguma princesa?», gritou.

As luvas custavam dinheiro. A minha mãe não era má. O que ela queria era que eu não tivesse ilusões. Passava a vida a tirar-me ilusões. Não és uma princesa. Tens a mania que és princesa. Tens de aprender como a vida custa. Eu se calhar tinha a mania.

Roubei muitas coisas em tua casa, Leonor. A primeira vez que lá fui não conseguia sair da casa-de-banho, lembras-te? Fiz de conta que estava mal disposta. Podia ter vivido ali para sempre, entre os azulejos dourados e a banheira infinita. Dentro dos armários, era só produtos com embalagens elegantes e nomes em estrangeiro. Experimentei-os todos. Trouxe nos bolsos um creme de corpo com brilhantes, um batom e um frasquinho de perfume minúsculo.

Sempre que ia a tua casa roubava alguma coisa. Dinheiro, discos, roupa. Nunca desconfiaste, pois não? És daquelas pessoas que nunca desconfiam de ninguém. Lembras-te daquele CD que uma vez encontraste em minha casa e que agarraste toda contente: «Olha o meu CD! Pensava que tinha desaparecido!». Eu, cheia de fúria, tirei-to da mão e disse que o tinha comprado. Mas era teu, era mesmo teu, tinha aliás um risco na capa que tu apontaste, tentando provar que aquele era o teu disco, e eu disse, aos gritos, que «todos os CDs têm riscos».

Por mais coisas que te roubasse, Leonor, nunca nada servia. Nunca chegava. Aquele casaco de ganga (sim fui eu, sei que o procuraste por todo o lado e até te ajudei, não foi?), esse casaco de ganga ficava-me tão apertado que eu parecia duas vezes mais gorda. Mesmo assim fiquei com ele, ainda o tenho. Sempre achei que seria o anel da tua avó a peça que faltava. Esperava uma oportunidade, um pequeno deslize. Só que tu nunca o tiravas. E agora cá está ele, oferecendo-se sem qualquer resistência. Puxei e soltou-se logo da tua mão, Leonor. As tuas mãos estão magras. Tentei pô-lo no anelar mas não serviu, só coube no mindinho.

Houve um único dia em que fui a tua casa e não roubei. Tinhas insistido para que eu fosse lá jantar. «Vai ser fondue, gostas?». «Gosto», disse eu. Mentia. Mentia com todos os dentes. Eu não sabia o que era fondue. Eu não sabia uma data de coisas. Fui para casa a decorar a palavra «fondiu», o caminho todo «fondiu», «fondiu». Quando agarrei o dicionário espantei-me ao ver que «fondiu» não leva i. Fondue. No dia do jantar quis mostrar desinteresse pela comida mas mergulhei, com um prazer incontrolável, a carne suculenta no óleo quente e nos molhos de várias cores.

Durante uma série de dias dormi com o dicionário ao meu lado, decorava uma palavra nova por dia. «É o meu livro preferido». Disse, por essa altura, para te impressionar. Tu, primeiro, deste uma gargalhada, pensavas que era uma piada porque «os dicionários não são os livros preferidos de ninguém». Depois, quando eu reagi, zangada, dizendo que era o único livro que tinha em casa, esse e a bíblia, os teus olhos ficaram vermelhos. Fizeste um esforço para não chorar, percebi.

Os teus olhos, húmidos de pena, meteram-me raiva porque eu não era estúpida. Eu não tinha livros mas eu não era estúpida. E tu com os teus olhinhos húmidos obrigavas-me a ser estúpida. Obrigavas-me. Tu tinhas as mãos pequenas e olhavas as pessoas nos olhos quando falavas. Porque tu tinhas livros em casa e lias. Se tu nos olhavas nos olhos nós também podíamos olhar mas, nessa altura, uma força qualquer obrigava-nos a olhar para o chão. Cheguei a desejar a tua morte, admito, e às vezes entretinha-me a imaginar que te aconteciam coisas terríveis.

Continuas bonita, Leonor, mesmo assim, tão quieta, com os cabelos sujos de sangue seco e este corte que te atravessa a cara. Eu posso nunca ser como tu mas fiquei com o anel. Esperava sentir uma emoção mais forte, sabes? Na minha mão parece que brilha menos. Talvez o anel não resolva nada, afinal.

Deixa-me ajeitar-te a almofada, tens a cabeça torta, quero que fiques confortável. Reforcei o sedativo para ficares mais tranquila. Estás bem, não estás? Ainda respiras. Faz-me impressão olhar para ti, tantas memórias. Se puser a almofada assim nem te vejo, é como se fosses outra pessoa qualquer, uma pessoa que nunca vi na vida.

Olha, aproxima-se gente… É a tua mãe. Vinte anos depois ainda reconheço o seu perfume. Lembra-se de mim, vê tu. Não me reconheceu logo porque só tinha olhos para ti mas depois fixou atentamente a minha cara e esboçou um sorriso. «Marlene, que sorte a minha filha ter uma amiga a cuidar dela».

Diz-me a tua mãe que não tens andado bem, sugere mesmo que terás sido tu a provocar o acidente. «A Leonor vai recuperar», consolo-a, sentindo um arrepio na barriga por saber que não és feliz. A pretexto de regular o soro viro-me de costas. É urgente esconder o anel. Puxo com força. Puxo outra e outra vez. Não sai. Mantenho, por isso, as mãos embrulhadas uma na outra mas a tua mãe aproxima-se, de braços abertos. «Pode ir andando, Marlene, eu vou ficar aqui até a Leonor acordar». Solto as mãos para corresponder ao abraço e o anel, ainda que minúsculo, torna-se tão visível que faz contrair a cara da tua mãe. Mas sabes que sou rápida a inventar desculpas. «Quando a Leonor entrou, tinha o anel quase a cair. Está muito magra, sabe? Nem sei como não o tiraram antes. Resolvi guardá-lo». Disse eu.

«Claro. Fez bem. Muito bem. Aqui no meio desta gente toda, pessoas que entram e saem, alguém o poderia roubar». A voz dura acentua a palavra «roubar». Os olhos da tua mãe não largam o anel. A mão estendida exige que eu o devolva. O anel, apertado, não sai. E eu não quero que saia. Mas a mão implacável impõe-se, agarra o meu pulso e arranca-me, com uma força impensável, o anel que era meu.

Fonte: Revista Caliban

EM APENAS 4 MESES, EUA VENDEM QUASE R$ 7 BILHÕES EM ÓLEO DIESEL PARA O BRASIL



Por Miguel do Rosário

Mesmo com a economia patinando e as hidrelétricas voltando a encher, o Brasil está registrando aumentos impressionantes na importação de óleo diesel. No acumulado dos últimos 4 meses (jan/abr) deste ano, o Brasil já importou um total de US$ 2,39 bilhões em óleo diesel, um aumento de 58% sobre igual período do ano anterior. Na comparação com igual período de 2016, o aumento foi de 235%.

Os dados são oficiais do governo federal, e podem ser consultados no seguinte endereço: http://comexstat.mdic.gov.br/pt/geral

O Brasil nunca importou tanto óleo diesel.

Com o aumento dos preços do petróleo, a conta vai ficar cada vez mais cara para o Brasil, elevando o custo de produção de todos os produtos nacionais, visto que o principal meio de transporte de mercadorias usado no país ainda é o caminhão movido a diesel.

Em reais, o Brasil gastou R$ 8,7 bilhões com a importação de óleo diesel, apenas nos 4 primeiros meses do ano.

Os itens mais pesados em nossa balança comercial tem sido derivados de petróleo. De janeiro a abril deste ano, segundo dados oficiais, o Brasil importou US$ 8 bilhões em derivados de petróleo, petróleo bruto, álcool e carvão, o que corresponde a R$ 29 bilhões, mais de 8 bilhões a mais do que o Executivo gastou efetivamente com saúde pública no primeiro trimestre de 2018.

A conta do petróleo está ficando muito pesada porque as primeiras medidas do governo Temer foram reduzir a produção das refinarias nacionais, além de suspender as obras de todas as refinarias em construção. Esta última decisão, a bem da verdade, veio da Lava Jato, cujos ataques mais virulentos contra a Petrobrás vieram sob a forma de suspensões judiciais e demais ações – incluindo a destruição das empresas responsáveis –  que inviabilizaram as obras nas refinarias.

O Brasil está voltando a ser uma velha colônia do século XIX. Nosso pré-sal está sendo vendido cru, sem nenhum tipo de valor agregado, e estamos comprando uma quantidade crescente de derivados do mesmo petróleo.

O maior beneficiário disso são os Estados Unidos, que coincidentemente elevaram brutalmente sua participação nas importações brasileiras de óleo diesel, de cerca de 40% antes do impeachment, para cerca de 80% em seguida. Em Jan/Abr 2018, os EUA exportaram US$ 1,84 bilhão em óleo diesel, para o Brasil, ou seja, R$ 6,73 bilhões.
Os caminhoneiros, uma das mais importantes categorias profissionais do país, devem ser esclarecidos que eles são vítimas, como todos nós, de um processo imperialista.
Alguns militantes estão reagindo com ressentimento contra os caminhoneiros, porque alguns deles se posicionaram contra Dilma Rousseff em 2015. Isso é um erro. Caminhoneiros são trabalhadores, e os partidos aliados à classe trabalhadora devem operar para ajudá-los a se organizarem, e a entenderem melhor a conjuntura.


MIGUEL DO ROSÁRIO

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

Fonte: O CAFEZINHO

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Carta a Lula



Exmº Sr. Ex-Presidente da República do Brasil Lula da Silva,

Há homens que lutam um dia, e são bons; há outros que lutam muitos dias, e são muito bons; há homens que lutam muitos anos, e são melhores; mas há os que lutam toda a vida, esses são os imprescindíveis!
Bertold Brecht

Maria João Cantinho


Peço desculpa por não escrever à mão e preferia fazê-lo, seria mais pessoal, mas receio que possa não conseguir ler bem a minha caligrafia. Por isso esta escolha. Além disso, sou portuguesa e o meu português é ligeiramente diferente.

Não gosto de ouvi-lo dizer, a não ser por ironia, que não tem curso superior. O senhor não precisa de nenhum curso superior nem tem de sentir-se inferior a ninguém. Muito pelo contrário, é muito superior a todos esses enfatuadinhos cheios de títulos, que andam a destruir o seu país. Aqueles que acham que, por serem titulados, isso lhes dá o direito de maltratar quem lhes apetece e até denegri-lo por isso. Lula, o senhor é um homem raríssimo, tem uma alma limpa e um carácter amoroso, será sempre superior a esses sujeitos que se alimentam do ódio de classes e agora querem destrui-lo.

O senhor era pobre e dos pobres veio. Os pobres não estudavam e foi o senhor quem deu a possibilidade aos pobres de fazerem o que não conseguiu fazer em menino e jovem. A vida agarrou-o pelos cabelos e a luta não lhe deu tempo para estudar, esse privilégio pelo qual lutou, para dá-lo aos outros. Só quem não quer ver não entende. E o homem sem curso foi o que mais cursos ofereceu a toda a gente, favorecendo as políticas de educação, dando bolsa-família, lutando por tirar o Brasil do mapa da fome. Coisa que nunca lhe perdoarão esses classistas e sabe isso tão bem quanto eu.

O Brasil tem neste momento, mais do que um gravíssimo problema político, um problema grave de valores, estando totalmente invertidos, como aliás em todo o mundo. Valores éticos, políticos, culturais e sociais. Não há política sem ética e é o que está a acontecer no Brasil, neste momento. A selvajaria dos políticos que deixaram de subordinar os seus valores à ética está à vista. Olhar para essa caricatura do ódio, como Bolsonaro, é repugnante, mostrando como a imoralidade se tornou impune, alavancada pelo discurso do ódio. E o senhor atravessou-se no caminho deles, dos imundos, dos porcos que, em breve, se irão denunciar e destruir uns aos outros, quando sentirem que o senhor deixou de ser o seu principal inimigo. Eu estou morta para ver esse afundamento sucessivo de figuras sinistras e vampiras. E vou aplaudir na primeira fila, juro-lhe.

O senhor ganhou toda a minha admiração há muito tempo. Há mais de 15 anos que vou ao Brasil e observei com alegria como o Brasil evoluiu com o seu governo e, depois, com Dilma. Em 2013 estive no Brasil durante 2 meses, a trabalhar como professora-visitante, e pressenti que as coisas estavam a mudar. Desde aí, o meu coração não pára de sangrar. Sinto, pelos amigos queridos que vivem no Brasil e pelo meu sentimento de justiça, sempre muito apurado. Não há como não sentir, sendo filha de um pai que foi perseguido pela PIDE, antes da Revolução de Abril. O meu pai não me deixou riquezas, mas sim uma herança sem preço e luto por transmiti-la aos meus filhos e, quem saberá(?), aos meus netos. Essa capacidade (que ele tinha) de ver claro onde tudo parecia escuro, de estar sempre do lado de quem precisa e não ao lado do poder, a qualquer preço. Estar onde é preciso estar. Às vezes calha estar ao lado do poder, mas apenas se sentir que o lado do poder é o da verdade. Bem sei que a verdade é hoje um conceito maltratado. Já não se fala de verdade, mas de pós-verdade ou de meta-narrativa, toda uma panóplia de conceitos que permitem fazer retórica ao bel prazer de qualquer um. Mas a verdade, querido Lula (permita-me chamar-lhe assim), é a verdade, aquilo que um tal Aristóteles dizia ser uma relação de adequação à realidade. É do que falo. E a verdade vai com justiça, como dizia meu amado Walter Benjamin, esse que é hoje tão celebrado pela Teologia da Libertação. A história que vivemos não é verdadeira, dizia ele, quando só fala, ou só quer falar, dos vencedores, do progresso. Isso é mentira. Por isso ele falava de uma outra história, uma história que desse lugar aos vencidos, às crianças, às mulheres, aos sacrificados. Essa é a exigência da justiça. E a justiça é verdadeira, significa repor a verdade na história. É tão simples que qualquer criança entende. Não é verdade contar a história dos brancos matando negros, não é verdade defender a democracia prendendo justos e inocentes. E o senhor, que é crente (embora eu seja ateia, mas penso de forma cristã), sabe isso tão bem quanto eu. Pode esconder-se a mentira debaixo do tapete, mas durante quanto tempo?

Aquilo a que assisti, durante 4 dias em directo, em São Bernardo da Feira, pois os seus leais amigos passaram no Facebook em directo, além dos jornalistas livres e da Mídia Ninja, foi ao nascimento de um mito: o senhor. O seu discurso e a resistência do povo, ao seu lado, comoveram-me até às lágrimas. Que homem é esse, capaz de levantar assim um povo, com palavras tão verdadeiras, tão sábias e tão simples? E, por outro lado, isso também me mostrou o «perigo» que o senhor representa para estes golpistas medíocres que o agridem e torturam agora. Porém, vi em si um leão que nunca se rende, nem se renderá, porque a sua vontade vem de algum lado que ninguém sabe explicar, a sua força é imanente, contagiante, e maior que o senhor. Como o senhor disse, Lula «já não é um homem, mas uma ideia» e é disso que o Brasil precisa desesperadamente, uma ideia ou uma ideologia que venha e arrebate o povo. O senhor é um mito vivo, como eu escrevi e envio aqui o meu artigo, para que possa ler.

Não querendo roubar-lhe tempo, o qual deve ser precioso para a constituição da unidade de esquerda e negociação com os seus lideres, deixo-o com um abraço muito carinhoso e cheio de esperança.

Maria João Cantinho
Autora, ensaísta e poeta. Tem quatro livros de ficção publicados, 4 livros de poesia e 1 ensaio. Doutorada em Filosofia.

Enviei a carta juntamente com um artigo que escrevi na Revista Caliban.


Fonte: REVISTA CALIBAN



sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

2018 já começou

Caravana do Lula em Minas Gerais: a resposta do povo aos golpistas

Marco Aurélio Rocha



No último 30 de outubro, uma segunda-feira, dezenas de milhares de pessoas reuniram-se na Praça da Estação, em Belo Horizonte. Não era um show musical ou atividade ligada a alguma igreja, como tem sido mais comum nos últimos anos. A multidão estava ali para assistir ao ato de despedida da caravana Lula por Minas Gerais.

Era o ápice de uma caravana de inegável sucesso. Foram oito dias percorrendo 12 cidades mineiras, em diferentes regiões do estado, totalizando 1,5 mil quilômetros de estrada. Em cada município, Lula foi recebido por uma população que visivelmente o admirava e o admira. Gente que reconheceu em seu governo o esforço para melhorar a vida dos mais pobres.

Mais importante do que isso, a caravana de Lula em Minas demonstrou, mais uma vez, que, se provocado, o povo responde positivamente. Havia, certamente, militantes políticos entre os presentes nos atos, mas havia igualmente gente sem qualquer filiação partidária ou envolvimento político mais forte. Estavam ali porque perceberam que o momento exige ação: o Brasil do golpe retira direitos dos trabalhadores, vende o Brasil ao capital estrangeiro e promove, com isso, a piora na qualidade de vida das pessoas.

Chamou a atenção, por exemplo, a forma como foi recebida a presidenta Dilma Rousseff. Ela esteve presente nos atos de Ipatinga (o primeiro da caravana), Montes Claros, Bocaiuva, Diamantina, Cordisburgo e Belo Horizonte. Em todos eles, foi ovacionada. Foi possível notar que a maioria das pessoas, ainda que bombardeadas pela propaganda midiática, hoje percebe nitidamente que houve um golpe de estado no Brasil. As palmas entusiasmadas a Dilma, em todos os lugares onde esteve, eram também o sinal de que ninguém está satisfeito com o rumo tomado pelo Brasil após o PT deixar o governo federal.

Essa insatisfação foi canalizada pela caravana. Antes de um evento pré-eleitoral a favor de Lula -- como gosta de dizer a mídia corporativa --, a caravana foi uma ampla mobiliza- ção popular contra o Brasil do golpe. Contra o que está aí: a privatização das empresas pú- blicas, a corrupção indisfarçada, a retirada de direitos trabalhistas, a redução ou mesmo corte total de políticas sociais criadas e executadas nos governos de Lula e Dilma...

A caravana mostrou que o caminho da luta, da mobiliza- ção popular, é a melhor tática. Aguardar outubro de 2018, na suposição de que teremos elei- ções regulares, é, no mínimo, uma ingenuidade. O golpe foi e é. Ocorre no cotidiano do governo ilegítimo encabeçado por Michel Temer. E por isso precisa ser combatido incansavelmente no dia-a-dia da esquerda brasileira. A caravana Lula por Minas Gerais deu a dica: se organizarmos a luta das trabalhadoras e trabalhadores, eles responderão afirmativamente.

Mesmo protestos contra Lula e as esquerdas em geral, prometidos por certos grupos da direita mineira e temidos por alguns militantes petistas, não deram certo. Quando ocorreram, reuniram um número máximo de 10, 20 pessoas, quando muito. Acabaram por si mesmos, quando seus líderes perceberam o ridículo a que estavam se submetendo na comparação com os milhares de conterrâneos favoráveis a Lula e ao PT. Foi assim em Ipatinga, Governador Valadares e Teófilo Otoni, onde os grupos de direita, todos defendendo o deputado federal pelo Rio, Jair Bolsonaro, até tentaram, mas não conseguiram reunir gente o suficiente para qualquer protesto. Depois disso, nas cidades seguintes (Araçuaí, Montes Claros, Bocaiuva, Olhos D’Água, Diamantina, Cordisburgo e BH), sequer demonstraram força para marcar qualquer ato anti-esquerdista.

O sucesso da caravana de Lula dá a receita: é preciso ir às ruas contra o golpe. O que estamos esperando? 

Artigo publicado no jornal Página 13

sexta-feira, 14 de julho de 2017

De passeata em passeata, rumo à guilhotina

É o que eu tenho dito aos amigos militantes, a guerra de agitação tem que ser feita, é necessária, mas não pode ser a única arma, teremos que encontrar meios para voltar a conscientizar e mobilizar a classe trabalhadora...

Marco Aurélio

De passeata em passeata, rumo à guilhotina

BEPE DAMASCO
Jornalista, editor do Blog do Bepe

Estou de pleno acordo que a luta de resistência democrática dos dias de hoje deve ter caráter pacífico. Abomino, por exemplo, o quebra-quebra irresponsável de tudo que veem pela frente por parte dos bandos de mascarados sem qualquer compromisso com a pauta de reivindicações dos manifestantes.

Dito isso, é preciso fazer justiça aos lutadores políticos e sociais, os quais desde que o golpe se tornou uma ameaça concreta têm feito das tripas coração nas ruas e nas redes em defesa da democracia e dos direitos do povo brasileiro.

Grandes protestos aconteceram em praticamente todos os estados. Em outros países, mobilizações dessa envergadura teriam força inclusive para dobrar deputados, senadores e os meios de comunicação. Não no Brasil, cujo Legislativo é composto majoritariamente por políticos inescrupulosos, sem vergonha e pilantras.

Mais de 90% da população apoiam eleições diretas como saída para o fosso em que se encontra o país. Mas a maioria do Congresso Nacional constrói um acordo excluindo a soberania popular, através de eleições indiretas. As pesquisas apontam também que 85% são contra as reformas previdenciária e trabalhista. Mas os parlamentares as aprovam mesmo assim.

O governo golpista deve ser o único do planeta cujos projetos visam somente agradar ao mercado, menos de 1% da população, sabotando dia após dia os interesses do povo. O Judiciário, inclusive o STF, além do Ministério Público, envergonham a nação e traem a República com suas decisões incoerentes, estapafúrdias e voltadas para proteção dos plutocratas e a criminalização dos políticos ligados às causas populares e seus aliados.

Um estadista reconhecido no mundo inteiro, como Lula, o presidente que mais fez pelo avanço social do Brasil e que tornou o país ator de primeira grandeza no cenário mundial, é caçado e perseguido por um juiz midiático e partidário em aliança com procuradores empavonados e inconsequentes.

Tudo com o apoio sorrateiro da inteligência do império norte-americano. Pautada pela mídia monopolista, é montada uma gigantesca fraude processual para tirar Lula, o favorito de todas as pesquisas, das próximas eleições presidenciais. A elite escravocrata corre contra o tempo. Depois da condenação de Lula por Moro, agora falta a 2ª instância confirmar a sentença para afastá-lo do páreo.

Enquanto isso, 14 milhões de desempregados perambulam à procura de uma ocupação, a recessão é maior da história, programas sociais são desmontados, os direitos trabalhistas viram pó com o fim da CLT, as aposentadorias estão por um triz, gastos com saúde e educação são congelados por 20 anos e as riquezas do pré-sal são entregues aos países estrangeiros.

Daqui a pouco não sobrará mais país e o povo estará condenado à escravidão. É disso que se trata. A democracia acabou. Não dá para seguir mais nesta toada de protestar nas ruas e ser golpeado em seguida, organizar outro protesto maior ainda e ser alvejado por mais um petardo.

Cabe à esquerda tratar tempos de guerra como tempos de guerra. O desafio é ser criativo e inovador quanto às formas de luta, sem descambar para a porralouquice. Estou longe de ter fórmulas mágicas para apresentar como sugestões de superação da mesmice que tem marcado as manifestações dos democratas.

Algumas ideias, porém, passam pela minha cabeça. Por que não pautar seriamente ações de desobediência civil, debatendo com a sociedade a necessidade de se deixar de pagar contas de luz, telefone, água, gás, telefone, etc?

Por que não tentar ocupar o maior número possível de prédios públicos ? Já imaginaram a repercussão causada pela cena de figuras públicas do partido ocupando permanentemente as mesas da Câmara e do Senado, quem sabe até fazendo greve de fome ? Corro o risco de ter feito sugestões de difícil execução. Muitos as considerarão até lunáticas. Mas que algo precisa ser feito, ah, isso precisa. E já.

Fonte: BRASIL247

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Como o PiG protege o Ministro Gilmar

Globo e o Ministro fazem a mesma política...

O Impeachment de Gilmar Mendes, ou a notícia que nunca houve


No dia 14 de junho de 2017, um pedido de impeachment contra o ministro do Supremo Tribunal Federal e presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Gilmar Mendes, foi protocolado no Senado Federal. Motivo alegado na petição: sua atuação político-partidária dentro da mais alta corte brasileira. A iniciativa foi tomada depois da divulgação, em maio, de uma ligação telefônica gravada entre o ministro e o senador afastado do PSDB, Aécio Neves. Sempre polêmico em suas decisões e pronunciamentos, o ministro nunca foi alvo da imprensa brasileira da forma como deveria, mesmo tendo sido o primeiro a quebrar uma tradição dentro do Senado, a de ser indicado por unanimidade – Gilmar recebeu 14 votos contrários à sua nomeação para o STF em 2002.

O pedido de impeachment poderia não ter significância no cotidiano do Poder Judiciário e ser tratado como mais uma iniciativa de pessoas que estavam insatisfeitas com a atuação do magistrado, não fosse por alguns detalhes que não podem passar despercebidos. O primeiro: a iniciativa do pedido não partiu de alguma parte que tenha sido afetada diretamente por uma decisão de Mendes, mas de duas “celebridades” do mundo jurídico brasileiro: o ex-procurador-geral da República, Cláudio Fonteles, e o professor de Direito da Universidade de Brasília (UnB), Marcelo Neves. Ambos encaminharam ao Senado o pedido de impeachment do ministro do STF, dizendo-se motivados pelas atitudes “indecorosas” de Mendes.

O segundo detalhe: em maio de 2002, quando Gilmar foi indicado para o Supremo pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso, o jurista Dalmo Dallari advertiu, em artigo publicado na Folha de S. Paulo, que no STF ele seria “a degradação do judiciário brasileiro”. Profético ou não, em maio de 2012, dez anos depois, Dallari declararia, segundo o blog Pragmatismo Político: “Não avisei? Naquele artigo para a Folha, eu já mostrava, com fatos, os problemas que o Judiciário brasileiro enfrentaria com o Gilmar Mendes no Supremo. Não há surpresas, pelo menos para mim”. No artigo de dez anos antes, o jurista salientou que a proteção dos direitos no Brasil estaria correndo “sério risco”, bem como o combate à corrupção e a normalidade constitucional. E pediu que o povo e a imprensa ficassem “vigilantes” para garantir o sistema democrático.

Chegamos a um ponto fundamental aqui: a mídia brasileira se furtou ao papel de vigiar o ministro, raramente colocando sob questão sua atuação polêmica. A base de dados do Manchetômetro mostra que o pedido de impeachment contra o ministro do STF não foi noticiado em manchetes, chamadas e páginas de opinião de Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo, O Globo ou nas reportagens do Jornal Nacional, mesmo tendo ele sido exposto por gravação de conversa telefônica com o senador Aécio Neves — um personagem acusado de inúmeros crimes de corrupção. O mais alarmante nesta gravação é não somente o tom de intimidade entre Aécio e Gilmar, mas o fato de que o senador praticamente dá ordens ao ministro, que promete sem vacilo executá-las prontamente.

A base de dados do Manchetômetro é alimentada todos os dias com informações colhidas dos três jornais impressos e do Jornal Nacional. As notícias analisadas incluem manchetes e chamadas de primeira página, editoriais, páginas de opinião, além de todas as matérias nos blocos do telejornal global que tratam de política e economia. Em nenhum deles há referência ao pedido de impeachment do ministro. Esse é um caso clássico de retirada de pauta de um fato que em outras circunstâncias seria um acontecimento significante para ingressar na agenda midiática e ser transformado em notícia. Ou seja, é uma retirada de quadro de um acontecimento que está fora dos paradigmas dominantes de quem pode ser criminalizado e de quem é mantido “acima de qualquer suspeita”.

A imprensa, no processo de formação ativa da opinião pública, define o que deve ser publicizado e o que deve ser silenciado. A atuação da imprensa no caso impeachment de Gilmar Mendes se deu até agora pela ausência, que, contudo, não é destituída de sentido. Ao agir de tal forma, os grandes meios não somente impedem publicamente que se discuta a atuação de Gilmar, mas propriamente barram o acesso da grande massa da população à informação mais básica de que o ministro tem, neste momento, um processo de impeachment movido contra ele.

Para termos uma ideia do que aconteceu foi necessário buscar fontes alternativas. Assim, o fato grave – que merece ser investigado e que pode colocar sob suspeição o ministro responsável pelo resultado do julgamento da cassação da chapa presidencial Dilma-Temer, ocorrido entre 6 e 9 de junho no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) – está agendado como notícia principal apenas em meios de comunicação fora da grande imprensa nacional. O episódio, aliás, não ficou restrito ao pedido de impeachment do magistrado. Após saber da solicitação do ex-procurador e do professor da UnB, o ministro se pronunciou em evento promovido pelo Grupo de Líderes Empresariais de Pernambuco (Lide-PE), fazendo acusações generalizadas contra membros do Ministério Público e do próprio Poder Judiciário. Isso provocou uma reação da Associação do Ministério Público de Pernambuco (AMPPE), que publicou nota oficial no dia 20 de junho para “externar sua indignação” diante das declarações do ministro.

Na nota pública, a AMPPE listou uma série de ações de Mendes que mereceriam estar na pauta da mídia porque definitivamente estão impregnadas de significância que justificam a sua transformação em notícia: “A sociedade espera que o senhor ministro esclareça os seguintes fatos: a) os milhares de reais destinados pela JBS ao Instituto de Direito Público de Brasília, entidade da qual é sócio; b) as conversas não republicanas divulgadas pela imprensa com integrantes de outros Poderes; c) a flagrante incoerência registrada no recente julgamento da chapa presidencial no TSE; e d) a atuação em ações patrocinadas pelo escritório de advocacia integrado pela sua esposa”.

Esses fatos, cobrados publicamente por uma instituição que congrega promotores e procuradores de Justiça, não resistiriam aos critérios de noticiabilidade de meios de comunicação que de fato buscassem noticiar fatos sociais relevantes para a sociedade. À época de sua nomeação para o STF, inclusive, já circulava informações de que Mendes havia contratado, como procurador-geral da República, pessoal para seu cursinho de Direito. Mas a agenda midiática não se adequou aos acontecimentos e mostrou o uso seletivo de critérios e de atenção aos episódios, que em outras circunstâncias foram tão explorados pela imprensa – como as ligações telefônicas entre o ex-presidente Lula e a ex-presidente Dilma Rousseff ou entre a ex-primeira dama Marisa Letícia e os seus filhos e, mais recentemente, as denúncias do dono da JBS, Joesley Batista, contra o presidente Michel Temer. Isso mostra com clareza que a mídia trata com frequência assuntos semelhantes de forma diferente, a depender das implicações políticas sobre os seus próprios interesses.

Estamos diante de mais um fato social que não se transmuta em fato jornalístico. Ora, o poder do jornalismo está na sua capacidade de projetar temas ou fatos sociais, alçando-os à condição de tópicos de discussão pública. Pesquisas indicam que há uma conexão entre as agendas jornalísticas e as preocupações dos cidadãos comuns. Mas se questões que estão direta ou indiretamente ligadas aos indivíduos acabam por fazer parte do seu universo a partir da veiculação jornalística, o contrário também é válido: o que está ausente da mídia também não habita o mundo real das pessoas. A escolha de certos temas em detrimento de outros se constitui em um mecanismo de formação da opinião pública.

Como dizia Bernard Cohen, em 1963, a imprensa “pode não conseguir dizer às pessoas como pensar, mas tem, no entanto, uma capacidade espantosa para dizer aos seus próprios leitores sobre o que pensar. O mundo parece diferente, dependendo do mapa que lhe é desenhado pelos redatores, editores e diretores do jornal que leem”.

Em recente pronunciamento, o presidente das Organizações Globo, Roberto Irineu Marinho, falou do “mar de mentira que nos assola, principalmente através da internet e das redes sociais”. Pois bem, foram as redes sociais que nos abasteceram com os fatos relacionados ao pedido de impeachment do ministro do STF, e não as notícias do Jornal Nacional. Para furar esse agendamento dominante, blogs de notícias e canais alternativos de mídia cumprem uma rotina narrativa diversa da grande imprensa, tentando conquistar espaço na formação da opinião pública. E foi por esses meios que pudemos construir esse ensaio, ou seja, investigando a agenda de veículos que não dominam a cena jornalística.

Fora do circuito da grande mídia, apenas no site da Folha de S. Paulo e no G1 a notícia apareceu, mas, como destacamos, não é repetida nas manchetes, chamadas de primeira página ou páginas de opinião da Folha e de O Globo, bem como no Jornal Nacional, além dos demais jornais impressos acompanhados pelo Manchetômetro. Em outras palavras, a notícia parece ter sido contida nos meios digitais, sem transmissão para os formatos impresso e televisivo das mídias que estudamos. Dar a informação em algum espaço dos sites, ainda mais sem destaque, é uma maneira de dar e de não dar uma notícia. Afinal, a divulgação de um fato por alguns minutos na televisão de maior audiência no país ou nas capas e páginas de opinião dos grandes jornais tem definitivamente um peso distinto de sua divulgação em espaços secundários desses outros veículos das mesmas empresas de comunicação.

Abaixo resumimos a cobertura do pedido de impeachment de Gilmar, em cada um dos sites em que foi noticiado.

CARTA MAIOR – o blog deu destaque ao pedido de impeachment do magistrado, retomando as declarações de Dalmo Dallari após a indicação de Mendes ao STF por FHC. A notícia detalha as bases do pedido feito por Fonteles e Neves, destacando o “exercício pelo ministro de atividades político-partidárias” ao se comprometer com Aécio Neves a conversar com parlamentares para tratar da votação da Lei de Abuso de Autoridade. Carta Maior também retoma processos anteriores de pedido de impeachment contra Mendes. O primeiro, de setembro de 2016, dos juristas Celso Antônio Bandeira de Mello, Fábio Konder Comparato, Sérgio Sérvulo da Cunha, Eny Raymundo Moreira, Roberto Amaral e Álvaro Augusto Ribeiro. Em dezembro do mesmo ano, Cláudio Fonteles deu entrada em seu primeiro pedido. Ambos foram arquivados pelo senador Renan Calheiros (PMDB), à época presidente do Senado Federal. O site mostra clara oposição às atitudes do ministro.

ZH Política – o blog faz referência à entrevista dada por Fonteles à Rádio Gaúcha, na qual o ex-procurador afirma que o ministro tem atuado de forma político-partidária. O site também faz referência aos pedidos anteriores que foram arquivados, e se mostra-se crítico à atuação do ministro do STF.

Carta Capital – o site da revista destaca o pedido de impeachment, salientando a autoria do processo. Segundo o semanário, a acusação contra Mendes é de crime de responsabilidade, e seus autores, Fonteles e Neves, pedem o impeachment e a proibição do exercício de funções públicas por até oito anos. Carta Capital apresenta ainda, na mesma página, links para outras notícias vinculadas aos pedidos anteriores de afastamento do ministro. A revista demonstra posição contrária às atitudes adotadas por Mendes.

Folha de S. Paulo – apesar de não dar a notícia em matéria de primeira página ou em páginas de opinião, a Folha noticia o fato em seu site, indicando que a ação foi motivada pelas gravações da conversa telefônica entre o ministro e o senador Aécio Neves. Além do pedido de impeachment, o jornal informa que os autores da ação pretendem ingressar com duas representações contra Gilmar: uma na Procuradoria-Geral da República (PGR) e outra no STF. A notícia tem um caráter de neutralidade, sem um posicionamento contra ou a favor aos atos do magistrado.

G1 – o canal traz inúmeros detalhes do pedido, embora pertença ao Grupo Globo, que não deu destaque à ação no Jornal Nacional ou no jornal O Globo. A notícia traz a transcrição da conversa entre o ministro e o senador, que motivou o pedido de impeachment, além de trazer informações de entrevista com os autores da ação. O site é o único a fazer referência a uma tentativa de contato com Gilmar Mendes no intuito de ouvi-lo sobre o caso, mas sem sucesso. Ainda que com riqueza de dados, o G1 não tem uma posição clara acerca das ações do magistrado.

Infomoney – o site, com viés mais econômico, inicia o texto com o pronunciamento de Gilmar Mendes sobre o processo de impeachment contra ele, no evento realizado no Recife. O Infomoney traz inúmeras declarações do ministro, que se defende dizendo ter boas relações com vários políticos, afirmando ainda não ver problema em ter relações político-partidárias. O blog ressalta que Mendes foi aplaudido por empresários e advogados após a sua fala, na qual desqualificou as acusações e os acusadores, chamando-os de “falsos juristas”. Sobre Fonteles, classificou de “piada ambulante no tribunal”. O enquadramento da matéria é claramente favorável ao ministro.

Valor Econômico – no site do jornal, a notícia também destaca o pronunciamento de Gilmar Mendes no Recife, com destaque às acusações que fez aos autores do pedido de impeachment. O Valor salientou ainda a posição do ministro de não se sentir constrangido por sua relação com o senador Aécio Neves. Embora a matéria tente afetar uma posição de neutralidade, o enfoque nas acusações contra os autores do pedido de impeachment sem o correspondente detalhamento da petição feita contra o magistrado, dá um sentido em favor de Mendes.

Tijolaço – o blog traz uma análise mais crítica contra a postura de Gilmar Mendes no Recife, dizendo que o ministro “tratou a patadas” os autores do pedido de impeachment. Recorrendo a fontes alternativas, o site traz informações do Facebook do jornalista Luís Costa Pinto, com afirmações do professor Marcelo Neves acerca das declarações do magistrado a propósito da ação contra ele. Neves diz que Mendes é “useiro e vezeiro em desviar a atenção dos seus malfeitos com ataque às pessoas”. O blog vai além em sua posição contrária ao magistrado, chamando-o de “ministro Tabajara”, em alusão a termo criado por programa humorístico popular, que denota falsidade, embuste e fraude.

Considerações Finais 
Poderíamos supor que os critérios que decidem se uma notícia vale a pena ser noticiada seriam sua potencial importância para o debate público, ou mesmo seus aspectos pitorescos, grotescos, incomuns e qualquer outra característica que possa atrair o interesse da audiência do meio. Não parece ter sido esse o caso, a não ser que assumamos que é do interesse da audiência do Jornal Nacional, por exemplo, que notícias negativas sobre Gilmar não sejam divulgadas. Tal suposição não se sustenta. Gilmar Mendes é certamente entre os juízes do STF aquele que tem atuação mais abertamente politizada, dando declarações públicas frequentes sobre fatos, políticos e partidos. O fato de a grande mídia brasileira, como mostra nosso estudo, ter praticado um esforço de agendamento tão intenso, para barrar a divulgação do pedido de impeachment contra ele, levanta a suspeita de sintonia entre sua agenda política e a do ministro, além de confirmar a tendência da mídia de se portar como agente político, dado que as análises do Manchetômetro têm revelado repetidamente.

Fonte: CONVERSA AFIADA

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Temer avacalha a República com compra de votos

WADIH DAMOUS
Deputado federal pelo PT/RJ e ex-presidente da OAB/RJ


Vai chorar ? Fora Temer !

Para tentar impedir a contaminação do processo de análise por parte dos deputados do acatamento ou não da denúncia contra Temer por corrupção passiva, demos entrada, eu e os deputados Paulo Pimenta e Paulo Teixeira, também do Partido dos Trabalhadores, com uma representação na Procuradoria Geral da República.

Os fatos noticiados pela imprensa nos últimos dias são estarrecedores. Só nesta terça-feira, 4 de julho, o usurpador recebeu dezenas de deputados em seu gabinete, além de ter liberado emendas parlamentares no valor de 4,2 bilhões.

Não por coincidência os maiores beneficiados foram o senador Aécio Neves, que depois de retomar o mandato com um discurso patético luta para manter o apoio tucano a Temer, e o protofascista Bolsonaro devido à forte atuação de seus "robôs" nas redes sociais.

Não é preciso ter bola de cristal para adivinhar o teor da conversa de Temer com os deputados. Seu modus operandi e sua trajetória levantam a forte suspeita de que não hesitou em apelar para toda sorte de chantagem, pressões não republicanas e até mesmo compra de votos. Quem definiu com precisão essa romaria de deputados ao Planalto foi o líder da nossa bancada na Câmara, deputado Carlos Zaratini : "É o varejo mais vagabundo da República."

Na representação à PGR, chamamos a atenção para a urgência que o caso requer. Só uma pronta atuação do MP pode impedir que o debate e a decisão soberana dos deputados sejam conspurcados. É de se prever o crescimento exponencial dessa agenda nebulosa de Temer à medida em que se aproxima a data da votação na CCJ e depois no plenário.

Algo tem que ser feito para assegurar a moralidade e preservar a administração pública. Defendemos junto à PGR a tese de que como Temer já é investigado por corrupção e organização criminosa, suas negociações com parlamentares na base do "toma lá dá cá" podem ser consideradas como continuidade delitiva. E ninguém duvida que ela seja capaz de tudo para se manter no governo. Mais o que a perda do cargo, o assombra a possibilidade concreta de descer a rampa direto para o presídio da Papuda.

A prisão de mais um dos seus homens de confiança, Gedel Vieira Lima, além da ameaça que paira sobre Moreira e Franco e Eliseu Padilha, fez com que o nível de desespero de Temer andasse mais algumas casas nos últimos dias. Também a escolha do relator do processo na CCJ não foi nada alvissareira para o governo, pois Sérgio Zveiter não é visto como confiável pela cúpula do golpe.

Mais uma pesquisa veiculada pela mídia, desta feita envolvendo apenas os membros da CCJ, mostra que Temer ainda está longe de obter os votos necessários ao arquivamento do processo. E essas dificuldades podem se acentuar, uma vez que não se deve subestimar a capacidade desse governo de produzir notícias negativas em série. É da sua natureza. Fora Temer ! Diretas Já !

Fonte: BRASIL247

As ideias de Ana Amélia, Cristóvam e outros "jênios" sobre a escolha de Ministros do STF, por Eugênio Aragão

por Eugênio José Guilherme de Aragão

Leio hoje que a nata do reacionarismo do Senado Federal está a armar mais uma arapuca para a soberania popular. Quietinha e vendendo com falsa modéstia um arremedo de espírito público. Trata-se de uma PEC para transformar o STF para todo o sempre num cocker spaniel manso e festeiro para os donos do poder.

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Qual é a ideia? Restringir o poder do presidente ou da presidenta da República na escolha dos ministros daquela corte. É engraçado que esse assunto só virou pauta política quando, por um desses acasos históricos, se abriu a oportunidade de os governos liderados pelo PT indicarem 13 ministros ao longo de 13 anos (e só não foram mais porque Gilmar Mendes articulou com Eduardo Cunha a votação a jato da PEC da bengala).

O problema do STF definitivamente não é ter sido "aparelhado" pelo PT. O método de escolha dos agraciados seguiu, nos governos Lula e Dilma, uma lógica trôpega ou, até mesmo, lógica nenhuma: abria-se a vaga e logo se iniciava a gincana dos interessados em coroar seus currículos pessoais com o que entendiam ser um galardão. Penduravam-se em padrinhos, desde Delfim Netto a João Pedro Stédile; de Ministro da Justiça a Presidente do Supremo; Deputados, Senadores, Governadores e até Prefeitos... faziam fila nas ante-salas de seus gabinetes. Esperavam humildes por horas. Não havia chá de cadeira que fosse demorado demais para os ministros in spe.

É claro que a gincana favorecia os mais vaidosos e concorrentes mais cotovelentos e resilientes, aqueles que, quando vislumbravam uma ameaça a seu sonho de felicidade por um outro gincaneiro, tratavam de queimá-lo com imprensa, maledicências, fofoca e tudo! E, quando atacados, conseguiam manter-se de pé. O vencedor era coroado dentro dos cânones da Lei de Darwin.

Esse tipo de recrutamento, é claro, não traz para a corte necessariamente os mais éticos, nem os mais habilitados. Traz os mais musculosos e bonitos. Traz os Johnny Bravos da carreira jurídica, incapazes de aguentarem uma crítica dos meios de comunicação de massa, impróprios para desempenhar o papel de juízes contramajoritários. São todos simpáticos. Abanam o rabinho quando querem o osso suculento da indicação. Choram de emoção quando chegam lá. Mas, investidos, têm medo de enfrentar a opinião pública, pois não querem queimar seu filme. Quando muito, se experimentam na defesa de direitos sexy, aqueles que até o liberalismo burguês da Rede Globo propugna. Isso dá brilho, dá a falsa ideia de ousadia e torna esses liberais pop.

Aliás, por falar em aparelhamento, quem o promoveu, sempre foi o PSDB e o PMDB, que, ao não deixarem a gincana correr solta, fizeram questão de indicar seus pit-bulls. Gilmar é um deles e Alexandre de Moraes outro. Estes são adestrados para não deixar seus donos serem atacados e expostos. Já os lindinhos indicados nos governos do PT fazem festa e mais parecem ter compromisso com sua própria imagem. "Espelho, espelho meu...".

Por isso é difícil, a esta altura, entender a intenção dos que querem mexer nas regras de indicação de ministros do STF. Afinal, varreram o PT do poder e, nem antes, o PT conseguira indicar ministros que o favorecessem. Na hora do perigo, todos preferiram abrigar-se na linguagem moralista e desancar seus patronos.

O perigo da personalização da escolha é, portanto, um perigo que é criado apenas por aqueles que hoje querem mudar as regras. Ou será que estão com medo de Lula em 2018?

Vamos à arapuca propriamente dita. Tem a carinha de Gilmar Mendes, tamanha a influência germanófila. Querem montar um grêmio à imagem e semelhança daquele que indica os juízes da corte constitucional federal tedesca. Só com uma diferença: enquanto lá a composição é tal que que contempla a política, a academia, os Länder e a sociedade civil, aqui seria formada pelos urubus-rei das corporações: presidentes de tribunais superiores, presidente do Conselho Federal da OAB, o PGR e o Defensor-Público-Geral da União. Um colegiado de juristas que bebem chopp do mesmo barril e frequentam a mesma loja maçônica. O povo que se dane. Não é apto para participar de tão grave escolha.

A lista que for produzida, com três nomes resultantes do consenso entre comensais, será apresentada àquele ou àquela que representa a soberania popular. Ou seja: a soberania manietada, mais uma vez, pela elite da burocracia ou pela burocracia da elite. Serão ministros, advogados ricos, de escritórios de vastas redes de relações ou juristas acadêmicos que darão uma puxadinha de saco aos componentes do colégio eleitoral. A maioria desprovida de disposição de luta e alguns, até, de coluna vertebral. Assim é que nossa justiça continuará classista, mansa e subserviente ao interesses dos que mandam no país... que não é o povo!

É isso que queremos? É justo ver criticamente o método de recrutamento de ministros do STF. Não porque sua escolha, pelo PT, tenha sido aparelhada. Mas porque se deu azo ao desfile de vaidades. É pedir muito a um chefe do executivo que escolha sozinho esses lindinhos, sem ter conhecimento da cultura rasteira das corporações. Fica, ele ou ela, a mercê de conselheiros de ocasião, todos pertencentes a uma torcida.

Mas porque restringir o colégio aos de sempre? Já vimos que isso não funciona nem para controlar juízes e membros do MP, sujeitos à tutela disciplinar de colegiados com composição uniforme do estamento jurídico! Precisamos é desmistificar nosso direito, que não passa de um instrumento de manutenção do status quo numa sociedade profundamente desigual. Precisamos de mais povo, de mais sociedade civil! Precisamos de gente que enxergue no STF uma trincheira da democracia e da cidadania e não uma honraria fútil. Um grêmio que for composto apenas pelos urubus-rei não é capaz de inovar nada. Só restringirá o número de padrinhos para aqueles que participam da gincana.

Fonte: GGN

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Míriam Leitão, seu relato manco e a solidariedade automática da esquerda brasileira. Por Kiko Nogueira



O caso do voo de Míriam Leitão jogou luz novamente sobre uma peculiaridade de certa esquerda brasileira: a solidariedade automática.

Imediatamente após a publicação da coluna da jornalista sobre um episódio de “violência verbal” de que teria sido vítima, perpetrada ao longo de mais de duas horas por “delegados petistas” e “representantes do partido”, muita gente boa acorreu em sua defesa.

Foi covardia, canalhice, fascismo, machismo, intolerância, linchamento, estupidez, mata, esfola, desgraçados, assim não dá, é tudo igual, coitada da Míriam etc etc.

A questão é que Míriam mentiu.

A não ser que tenha na manga alguma evidência que não usou ainda — o que seria igualmente estranho —, os fatos simplesmente não ocorreram como ela contou depois de transcorridos dez dias.

Há pelo menos dois depoimentos de presentes a desmentindo em pontos chaves, além de um vídeo e da própria companhia aérea.

Toda a empatia a Míriam foi baseada em sua história manca. Seus defensores não se preocuparam em checar nada. Bastou enquadrar tudo num formato apriorístico e mandar bala.

Para ficar apenas num exemplo, o bom colunista Leonardo Sakamoto escreveu que “rasgamos o pacto que os membros da sociedade fizeram entre si para poderem conviver (minimamente) em harmonia”.

“É um Fla-Flu, um nós contra eles cego, que utiliza técnica de desumanização de quem participa do debate público, transformando pessoas em coisas descartáveis”, diz. Etc.

Noves fora o fato de que Sakamoto comprou a versão da colunista do Globo na maior, é preciso lembrar que o clichê idiota do “Fla-Flu” já expirou a data de validade há décadas.

Um lado, o Fla, bate. O outro, o Flu, apanha. Republicanamente.

Num excelente artigo sobre a polarização, o professor Aldo Fornazieri, diretor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, anotou que “nas repúblicas democráticas bem constituídas não é o consenso, não é a paz dos cemitérios, não é a passividade que constroem bem estar e boas leis”.

Essa é a hipocrisia nacional, aponta Fornazieri.

É evidente que não se advoga a porrada. Mas é preciso dar às coisas o nome que elas têm.

Há uma certa noção equivocada de superioridade moral nessa esquerda, que acaba provocando reação desse tipo. A vaidade da falsa humildade. De quem se acha tão acima do adversário que o afaga, por mais criminoso que o outro seja.

Quando Rachel Sheherazade foi “humilhada” por Silvio Santos, seu patrão e ídolo, a mesma grita se deu.

No dia seguinte, Sheherazade estava rindo das mulheres que a apoiaram incondicionalmente. Nossa colunista Nathalí Macedo comentou sobre essa sororidade.

Sheherazade e Míriam não precisam da sua imensurável bondade cristã porque têm as costas muito mais quentes que a sua e jogam o jogo.

“Detesto as vítimas quando elas respeitam seus carrascos”, disse Sartre.

Míriam deseja denunciar o ódio que grassa no Brasil? Ódio mesmo? Ódio figadal?

Que tal, ao invés de falar de si mesma, apelando para seu passado contra a ditadura, meia dúzia de palavras sobre o fato de Sérgio Moro não absolver Marisa Letícia mesmo depois de morta? Sim: depois de morta.

Que tal um auto exame?

Se alguém merece desculpas, são os militantes retratados como uma turba ignóbil de stalinistas no texto — usarei um eufemismo — obscuro de Míriam Leitão, espancados à direita e à esquerda.

Monstros que cantaram “a verdade é dura, a rede Globo apoiou a ditadura”.

Mas, com esses, ninguém gasta vela.

Fonte: DCM

sexta-feira, 9 de junho de 2017

O micróbio macróbio ou a sobrevida de um morto

POR FERNANDO BRITO · 08/06/2017



Os portais de notícias antecipam que a conclusão do festival de vaidades e propagandismo do julgamento do TSE será, por 4 votos a três, pela improcedência da ação de cassação da chapa.

Talvez seja, como se dizia antigamente, a “visita da saúde” de Michel Temer, nome que se dava a uma inexplicável melhora do paciente que, em poucos dias, “bateria as botas”. Ou, como se diz na piedosa linguagem dos que andam pela minha idade, “evoluiria a óbito”.

Por maior que seja o controle e a influência de Temer, sob as asas de Gilmar Mendes, num tribunal que, pudesse condenar Dilma Rousseff e inocentá-lo, teria um resultado de “100” a zero, porque imolar um eleito nada é, pra eles, perto do destituir um poderoso da sua própria grei.

Vai durar pouco, se é que está durando, com esta história torpe do jatinho de Joesley, a alegria do ocupante do Planalto.

De início, alguns de boa-vontade achavam apenas que tinham elevado à Presidência um macróbio, que, embora desajustado dos novos tempos e demandas da sociedade, faria apenas a política convencional do conservadorismo. As suas pompas, mesóclises e fogosos apetites sobre a juventude e beleza entravam apenas no figurino comum de inaceitação do outono.

Rapidamente, desde que começaram as revelações sobre a quadrilha que o contornou e acompanhou ao Planalto, e agora completamente com o comportamento de gangster exibido no caso JBS, conclui-se que o macróbio era, apenas, um micróbio, que não tem estatura para ser mais do que um dos muitos deputados fisiológicos que abundam em nosso parlamento, um pequeno verme destes que caruncham os negócios da política.

A bactéria moral que nos preside, porém, não sobrevive à luz por muito tempo. Pior, porque está servindo de razão para o violento ataque parasitas policiais-judiciais, que se servem da baixa imunológica da democracia e das liberdades para se adonarem do organismo da nação.

Temer, que todos sabiam pequeno, mas que se imaginava imenso, revelou-se minúsculo, microscópico.

O o Brasil, que ele disse que uniria, está inapelavelmente dividido, unido, quase todo, apenas no desejo de livrar-se dele.

 Fonte: TIJOLAÇO

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Temer começou escrevendo “cartinha”, vai terminar escrevendo depoimento?

POR  · 30/05/2017



O “verba volant, scripta manent” com que, pedantemente, encimou sua carta-traição a Dilma Rousseff em meio ao complô que dirigiu com Eduardo Cunha para derrubá-la vai ganhar uma nova versão.
Agora, o que Temer vai escrever é seu depoimento-interrogatório à Polícia Federal sobre os negócios que manteve com a JBS de Joesley Batista.
Terá de negar que sabia que seu pupilo Rodrigo Rocha Loures fora apanhar uma mochila de R$ 500 mil e que este o fez por conta própria, apenas para si.
Como assessor, mesmo palaciano, não decide negócios Loures terá de botar mais alguém “na roda”para explicar o destino do dinheiro.
E a fila dos segredos e da mentira irá crescendo, o que nestes tempos de delação é o mesmo que ir armando bombas de efeito retardado.
O que não teve destaque, na mídia, ao noticiar-se a separação dos inquéritos sobre Temer e Aécio Neves – que não têm, mesmo, qualquer conexão direta – foi que negou-se o pedido do advogado do ocupante do Palácio do Planalto de separa-lo de Rocha Loures:
“A afirmação de que o deputado Rodrigo Loures seria “homem de ‘total confiança’ de Michel Temer”, mesmo que fosse verdadeira, não induziria, como não induz, à formação de um nexo necessário à reunião das investigações”, diz a petição (paupérrima, por sinal) do advogado Antonio Mariz de Oliveira.
Pelo visto, não apenas induziu como amarrou definitivamente os atos de Loures às tratativas de Temer.
Aliás, as vergonhosas peripécia de Temer para conseguir uma garantia de foro privilegiado para Loures perderam o sentido. Como se  disse antes, a conexão com os atos de Temer mantém o “homem da mala” do STF,
A não ser que Temer queira assumir que lhe arranja um mandato para evitar que seja preso e aumente-se o risco de que dê com a língua nos dentes.
Michel Temer é um cadaver insepulto, à espera de que um delator venha lhe cravar uma estaca no coração.

Fonte: TIJOLAÇO

quinta-feira, 25 de maio de 2017

A força só leva à crise. Salvação de Temer é aceitar que acabou





A escalada de insanidade que o Brasil está vivendo tem seus remédios em duas coisas que a direita não quer aceitar.
A primeira é que se não havia antes condições políticas e legitimidade para aprovar as reformas trabalhista e previdenciária, agora isso é impossível e fazê-las adotar á força nos levará a confrontos de dimensões incalculáveis.
Nem se discute se são necessárias, nesta ou naquela direção ou neste ou naquele grau. Mas está evidente que não se pode fazê-las em um clima de ditadura, congressual que seja.
A segunda é que não parece um nome de consenso – que todos concordam ser a única saída imediata para o afastamento de Michel Temer – porque não há homem neste país que seja capaz de unir o Brasil.
Mas há uma ideia, sim, que só não é unânime porque os grupos conservadores e o “mercado” ainda se aferram à ideia exposta cruamente por Henrique Meirelles: “com Michel ou sem Michel, as reformas têm de sair”.
Tão grave quando o “fundamentalismo de mercado” é o “fundamentalismo judicial”. A finalidade da lei e da Justiça é a de preservar direitos e  solucionar conflitos. Se, numa casa conflagrada, no mesmo momento, quisermos examinar e julgar cada ato, pequeno ou grande, de cada um dos moradores, nada sobrará de pé.
Nada, até que surja um tirano que, à força, restabeleça a ordem, mas sem justiça alguma, porque só a sua vontade prevalecerá sobre as ruínas.
Se Michel Temer quer deixar o Planalto com um mínimo de dignidade e não ser chutado de lá, só tem um caminho.
Que não é chamar o Exército, mas chamar eleições, retirando as reformas que propôs ao Congresso, deixando ao novo governo, eleito, a decisão de levá-las em frente ou não, e de que forma.
Infelizmente, parece ser um gesto grande demais para um homúnculo como ele, que vive num mundo de dissimulação,  golpes de esperteza e vaidade medíocre.
Dificilmente terá esta compreensão, embora seja a única coisa, a esta altura, que tornaria sua morte política digna e preservaria seu cadáver do vilipêndio inevitável que virá de sua derrubada.

Fonte: TIJOLAÇO

Temer recua e anula decreto convocando as Forças Armadas

Planalto não conseguiu evitar a impressão de que convocou militares para continuar se sustentando mesmo em meio à crise da delação da JBS

Valter Campanato / Agência Brasil


Michel Temer recuou. Menos de 24 horas depois de emitir um decreto autorizando uma missão de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), que autorizava o Exército a fazer a segurança do Distrito Federal por uma semana, Temer publicou na manhã desta quinta-feira 25 um outro decreto, revogando o anterior. Assim, a segurança do DF volta a ser feita pela Polícia Militar.

A decisão de Temer se dá após uma saraivada de críticas à medida, anunciada na tarde de quarta-feira 24 em meio ao protesto convocado por centrais sindicais e movimentos sociais que descambou para um ciclo de depredação e violência policial em Brasília.

A impressão quase generalizada era a de que o decreto foi publicado por Temer como uma tentativa de se salvar em meio à crise deflagrada pela delação de executivos da JBS. "Se esse governo não se sustenta, não são as Forças Armadas que vão sustentá-lo", disse na tribuna do Senado Renan Calheiros (PMDB-AL), que vem fazendo firme oposição ao Planalto, no início da noite de quarta.

Na Câmara e no Senado, oposicionistas chegaram a apresentar decretos legislativos que tinham o objetivo de contrapor o documento lançado por Temer, mas nenhum deles foi apreciado.


O decreto da GLO perdeu força e legitimidade minutos depois de ser anunciado pelo ministro da Defesa, Raul Jungmann (PPS). Em seu pronunciamento, Jungmann afirmou que as tropas foram convocadas "por solicitação do senhor presidente da Câmara", mas Rodrigo Maia (DEM-RJ) imediatamente rechaçou a fala do ministro.

Preocupado com a péssima repercussão da convocação do Exército, Maia divulgou o ofício enviado à Presidência da República, no qual pedia a utilização da Força Nacional de Segurança Pública. E aproveitou para afirmar que Raul Jungmann mentiu. "Afirmo e reafirmo que não é verdade. Pedi para o ministro da Defesa repor a verdade", disse Maia em entrevista coletiva.

O governo tentou se safar da crise afirmando que os militares do Exército fariam apenas a segurança dos prédios ministeriais, enquanto a PM continuaria encarregada do policiamento repressivo. Não foi o suficiente para dissipar o fato de que a GLO, geralmente usada em momentos excepcionais (como a Copa do Mundo de 2014, os Jogos Olímpicos de 2016 ou as crises carcerárias recentes no Espírito Santo e no Rio Grande do Norte) estava sendo invocada contra manifestantes.

Como justificativa para a revogação do decreto, o governo afirma que "considerando a cessação dos atos de depredação e violência e o consequente restabelecimento da Lei e da Ordem no Distrito Federal, em especial na Esplanada dos Ministérios", o trabalho do Exército não era mais necessário.

De acordo com o portal G1, a decisão foi tomada por Temer em reunião com Jungmann e os ministros Eliseu Padilha (Casa Civil), Moreira Franco (Secretaria-Geral), Antônio Imbassahy (Secretaria de Governo) e Sérgio Etchegoyen (Gabinete de Segurança Institucional).


Fonte: CARTA CAPITAL