quarta-feira, 23 de maio de 2018
O Anel
Patrícia Maia Noronha
Reconheci-te imediatamente por causa do anel, Leonor. Tinha acabado de vestir a farda quando o doutor me chamou. «Enfermeira Marlene», disse ele, encaminhando-me para a tua cama, «muita atenção com esta paciente, vítima de acidente rodoviário com traumatismos múltiplos». Depois disso, a voz dele transformou-se num eco longínquo.
Fui acenando que sim, competente, mas só o anel, isso sim, só isso me importava. O anel antiquíssimo que a tua avó te ofereceu, horas antes de morrer, e que passaste a usar, desde esse dia, com um carinho insuportável. «É lindo não é?», perguntaste-me, a meio da aula de físico-química. Esticavas a mão pequenina na minha direção.
O brilho da pedrinha minúscula feria-me os olhos. Escondi as minhas mãos, gordas e avermelhadas. Quando cheguei a casa, pedi à minha mãe umas luvas de plástico para usar quando lavava a loiça e o chão e a casa de banho e a cozinha. Para usar sempre que lavava. A minha mãe ameaçou um estalo, de braço no ar. «Julgas que és alguma princesa?», gritou.
As luvas custavam dinheiro. A minha mãe não era má. O que ela queria era que eu não tivesse ilusões. Passava a vida a tirar-me ilusões. Não és uma princesa. Tens a mania que és princesa. Tens de aprender como a vida custa. Eu se calhar tinha a mania.
Roubei muitas coisas em tua casa, Leonor. A primeira vez que lá fui não conseguia sair da casa-de-banho, lembras-te? Fiz de conta que estava mal disposta. Podia ter vivido ali para sempre, entre os azulejos dourados e a banheira infinita. Dentro dos armários, era só produtos com embalagens elegantes e nomes em estrangeiro. Experimentei-os todos. Trouxe nos bolsos um creme de corpo com brilhantes, um batom e um frasquinho de perfume minúsculo.
Sempre que ia a tua casa roubava alguma coisa. Dinheiro, discos, roupa. Nunca desconfiaste, pois não? És daquelas pessoas que nunca desconfiam de ninguém. Lembras-te daquele CD que uma vez encontraste em minha casa e que agarraste toda contente: «Olha o meu CD! Pensava que tinha desaparecido!». Eu, cheia de fúria, tirei-to da mão e disse que o tinha comprado. Mas era teu, era mesmo teu, tinha aliás um risco na capa que tu apontaste, tentando provar que aquele era o teu disco, e eu disse, aos gritos, que «todos os CDs têm riscos».
Por mais coisas que te roubasse, Leonor, nunca nada servia. Nunca chegava. Aquele casaco de ganga (sim fui eu, sei que o procuraste por todo o lado e até te ajudei, não foi?), esse casaco de ganga ficava-me tão apertado que eu parecia duas vezes mais gorda. Mesmo assim fiquei com ele, ainda o tenho. Sempre achei que seria o anel da tua avó a peça que faltava. Esperava uma oportunidade, um pequeno deslize. Só que tu nunca o tiravas. E agora cá está ele, oferecendo-se sem qualquer resistência. Puxei e soltou-se logo da tua mão, Leonor. As tuas mãos estão magras. Tentei pô-lo no anelar mas não serviu, só coube no mindinho.
Houve um único dia em que fui a tua casa e não roubei. Tinhas insistido para que eu fosse lá jantar. «Vai ser fondue, gostas?». «Gosto», disse eu. Mentia. Mentia com todos os dentes. Eu não sabia o que era fondue. Eu não sabia uma data de coisas. Fui para casa a decorar a palavra «fondiu», o caminho todo «fondiu», «fondiu». Quando agarrei o dicionário espantei-me ao ver que «fondiu» não leva i. Fondue. No dia do jantar quis mostrar desinteresse pela comida mas mergulhei, com um prazer incontrolável, a carne suculenta no óleo quente e nos molhos de várias cores.
Durante uma série de dias dormi com o dicionário ao meu lado, decorava uma palavra nova por dia. «É o meu livro preferido». Disse, por essa altura, para te impressionar. Tu, primeiro, deste uma gargalhada, pensavas que era uma piada porque «os dicionários não são os livros preferidos de ninguém». Depois, quando eu reagi, zangada, dizendo que era o único livro que tinha em casa, esse e a bíblia, os teus olhos ficaram vermelhos. Fizeste um esforço para não chorar, percebi.
Os teus olhos, húmidos de pena, meteram-me raiva porque eu não era estúpida. Eu não tinha livros mas eu não era estúpida. E tu com os teus olhinhos húmidos obrigavas-me a ser estúpida. Obrigavas-me. Tu tinhas as mãos pequenas e olhavas as pessoas nos olhos quando falavas. Porque tu tinhas livros em casa e lias. Se tu nos olhavas nos olhos nós também podíamos olhar mas, nessa altura, uma força qualquer obrigava-nos a olhar para o chão. Cheguei a desejar a tua morte, admito, e às vezes entretinha-me a imaginar que te aconteciam coisas terríveis.
Continuas bonita, Leonor, mesmo assim, tão quieta, com os cabelos sujos de sangue seco e este corte que te atravessa a cara. Eu posso nunca ser como tu mas fiquei com o anel. Esperava sentir uma emoção mais forte, sabes? Na minha mão parece que brilha menos. Talvez o anel não resolva nada, afinal.
Deixa-me ajeitar-te a almofada, tens a cabeça torta, quero que fiques confortável. Reforcei o sedativo para ficares mais tranquila. Estás bem, não estás? Ainda respiras. Faz-me impressão olhar para ti, tantas memórias. Se puser a almofada assim nem te vejo, é como se fosses outra pessoa qualquer, uma pessoa que nunca vi na vida.
Olha, aproxima-se gente… É a tua mãe. Vinte anos depois ainda reconheço o seu perfume. Lembra-se de mim, vê tu. Não me reconheceu logo porque só tinha olhos para ti mas depois fixou atentamente a minha cara e esboçou um sorriso. «Marlene, que sorte a minha filha ter uma amiga a cuidar dela».
Diz-me a tua mãe que não tens andado bem, sugere mesmo que terás sido tu a provocar o acidente. «A Leonor vai recuperar», consolo-a, sentindo um arrepio na barriga por saber que não és feliz. A pretexto de regular o soro viro-me de costas. É urgente esconder o anel. Puxo com força. Puxo outra e outra vez. Não sai. Mantenho, por isso, as mãos embrulhadas uma na outra mas a tua mãe aproxima-se, de braços abertos. «Pode ir andando, Marlene, eu vou ficar aqui até a Leonor acordar». Solto as mãos para corresponder ao abraço e o anel, ainda que minúsculo, torna-se tão visível que faz contrair a cara da tua mãe. Mas sabes que sou rápida a inventar desculpas. «Quando a Leonor entrou, tinha o anel quase a cair. Está muito magra, sabe? Nem sei como não o tiraram antes. Resolvi guardá-lo». Disse eu.
«Claro. Fez bem. Muito bem. Aqui no meio desta gente toda, pessoas que entram e saem, alguém o poderia roubar». A voz dura acentua a palavra «roubar». Os olhos da tua mãe não largam o anel. A mão estendida exige que eu o devolva. O anel, apertado, não sai. E eu não quero que saia. Mas a mão implacável impõe-se, agarra o meu pulso e arranca-me, com uma força impensável, o anel que era meu.
Fonte: Revista Caliban
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