Quatro horas por dia, em ônibus lotados. Considere se é possível viver criativamente, em tais condições. E pense na segregação social e étnica implicada
Ao refletir sobre São
Paulo, é inevitável lembrar do pensador sobre natureza
desumanizadora do trabalho, em sociedades segregadas. Do Outras
Palavras
por Juliana M. Dias
Por que algumas pessoas
têm direito de usufruir da cidade, enquanto outras apenas vivem para
enfrentá-la, num esforço diário por sobrevivência? O Brasil tem a
imagem de ser cordial e amante da igualdade, mas ainda permanece
essencialmente escravocrata e segregacionista. Basta um olhar em
qualquer metrópole para vermos que a questão vem de séculos. Isto
não significa um desejo de viver em eterna contemplação
improdutiva, uma volta à vida bucólica e menos ainda uma crítica
às sociedades industriais ou ao capitalismo, mas uma tentativa de
reflexão sobre a busca pela realização profissional, o que as
pessoas fazem com seu tempo livre, a sobrevivência versus a
vivência. Nada disso é igual para todos, nem nunca foi.
Moro em São Paulo, no
bairro do Paraíso (adjacências do Centro) e trabalho em um
escritório no Brooklin (Zona Sul). Levo o mesmíssimo tempo para
percorrer os 6 quilômetros de distância estando a pé ou de ônibus,
exatas 1h20 – a diferença é que a pé chego com 600 calorias a
menos. Isso é um sintoma de se viver em uma cidade que sucateou o
seu Centro, deixando-o entregue ao abandono, onde ninguém quer
morar, nem passar. O desenho urbano hoje é definido por nova região
de concentração de empregos, o chamado “quadrante sudoeste” que
reúne os “melhores” bairros, menores índices de mortalidade e
violência, melhores serviços, temperaturas mais baixas (porque é
mais arborizado), melhor infraestrutura de transporte e um chão tão
caro que chega a ser irreal. É a região rica da cidade, que no Rio
corresponderia à Zona Oeste. Nela, de forma geral, “ricos”
moram, trabalham e precisam percorrer trajetos mínimos para acessar
todas as suas atividades de lazer -- academia, shopping, pet shop.
Esse quadrante abrange bairros como Pinheiros, Vila Madalena,
Brooklin, Jardins e Vila Olímpia, entre outros. Esses dados e o mapa
são dos estudos do professor Flavio Villaça (USP) sobre segregação.
Entre patrões e
empregados, existem diferenças fundamentais com relação ao uso da
cidade nesse “quadrante sudoeste”. Os empregadores, em geral,
moram e trabalham na região; têm filhos que lá estudam;
deslocam-se de carro. Já os empregados chegam de áreas distantes.
Muitos moram na Zona Leste, região mais populosa da cidade, que
conta com apenas uma linha de metrô (que alcança poucos de seus
bairros) e uma de trem metropolitano (insuficiente e muito saturada).
Uma viagens de ida ou vinda estende-se frequentemente por duas horas.
Mas as pessoas que
vivem em um condomínio fechado de alto padrão, no quadrante
sudoeste, não o fazem por terem “corações de pedra” ou serem
“vilões contra a classe trabalhadora”. É uma questão cultural.
A cidade é injusta porque a distribuição de renda o é, também.
As oportunidades são desiguais. Há fraturas profundas entre as
classes sociais, ainda que tenhamos passado por grandes modificações
nos quadros da miséria nos últimos governos.
Imagine que você é
filho ou neto de alguém que, por circunstâncias diversas, fez
faculdade, teve carreira profissional bem-sucedida, pode comprar casa
e pagar seus estudos em uma boa escola e uma universidade. Você
morou por toda a vida em uma casa no Alto de Pinheiros (exemplo de
bairro rico da Zona Oeste), que um dia será sua. Nunca viveu sem
carro. Mas a cidade abriga, também, filhos de sertanejo, que veio
para São Paulo tentar a sorte, empregaram-se na construção civil,
construíram um cômodo em um lote invadido de Parelheiros (extremo
sul) e casaram-se com empregadas domésticas. Seus filhos terão
estudado, por toda a vida, em uma escola municipal. Começaram a
trabalhar cedo. Nunca prestaram vestibular.
Entre os privilégios
ou dificuldades que marcarão a vida desses dois personagens, quais
estão ligados méritos; e quais são provenientes das oportunidades
que tiveram por "herança"? Quais das conquistas do
primeiro personagem fazem dele um merecedor da “melhor parte” de
uma cidade, que deveria ser de todos? Bons estudos costumam
desembocar em boas carreiras, mesmo que isso demande grande esforço
e trabalho. Onde estarão vivendo essas duas famílias e seus
descendentes, até que algum deles consiga quebrar um elo dessas
correntes hereditárias? E por falar em correntes, é preciso tentar
adivinhar as cores das peles desses dois personagens, que você
provavelmente já imaginou? Qual deles é o descendente do imigrante
europeu; qual é o bisneto do escravo? Isso está incrustado na nossa
cultura, simplesmente. É uma herança da nossa miscigenação
intensa, porém segregada.
Quem é mais pobre mora
longe do trabalho e outros destinos. Perde no transporte tempo
precioso que poderia ser usado para desenvolver uma atividade
intelectual ou prazerosa. É devastador o que a falta de tempo e
dinheiro estudo, leitura e outras atividades culturais pode fazer com
uma pessoa; mas é ainda mais devastador não ter o direito de,
simplesmente, não fazer nada: não ter tempo livre para criar,
produzir autonomamente, divertir-se.
Um modelo de vida
urbano baseado em sacrifícios traz, além de defasagem intelectual,
diversos problemas de saúde. Algumas profissões a que estão
obrigadas as pessoas obrigadas ao trabalho para mera sobrevivência
são desgastantes, degradantes, aborrecidas ou humilhantes. Mas a
grande maioria é exercida para enriquecer alguém. Por mais que o
trabalho, qualquer um, seja “edificante” (existe mérito no
esforço), é preciso ter estrutura familiar e/ou financeira para
desempenhar sua vida profissional com prazer, o que geralmente
determina o sucesso.
Não sou comunista, mas
cito aqui o barbudo alemão, para reflexão: “O trabalho é externo
ao trabalhador, não pertence ao seu ser, que ele não afirma,
portanto, em seu trabalho, mas nega-se nele, que não se sente bem,
mas infeliz, que não desenvolve nenhuma energia física e espiritual
livre, mas mortifica sua physis e arruína o seu espírito… O
trabalho não é a satisfação de uma carência, mas somente um meio
para satisfazer necessidades fora dele.”
É preciso ligar as
peças do quebra cabeças que faz com que a cidade simplesmente só
funcione para algumas pessoas. Em qual momento ela (ou elas, já que
estamos falando de metrópoles brasileiras) fugiram do controle?
Vivemos o paradoxo de ter que usar o carro para ir para o trabalho e
ter que trabalhar para pagar o carro. Copiamos dos filmes
hollyowoodianos dos anos 1950 a fascinação por automóveis,
autoestradas, eletrodomésticos, consumo. Ele não é um mal em si, e
é bom que muitos tenham saído da miséria e podido ter consumir,
mas quando isso se faz de forma pouco consciente, baseado em
desigualdade e substituindo investimentos em serviços públicos de
qualidade, surge uma infelicidade quase palpável, algum tipo de
angústia crônica.
Essa não é uma
discussão apenas urbanística, mas profundamente íntima. Trata das
relações que começaram a se desenvolver quando o Brasil incorporou
as injustiças de mundo desigual num deságue doloroso e sangrento. O
local onde vivemos reflete esse peso histórico, tornando o usufruto
da cidade privilégio de poucos, enquanto a maioria apenas a usa como
meio de subsistência.
Sim, as cidades
precisam de mais metrôs, de catracas livres, do fim da cultura do
automóvel, de energia limpa. Mas também precisam de periferias que
sejam autônomas e estruturadas para que os destinos se invertam. E
para isso as cabeças precisam deixar de ser apenas operantes para se
tornarem pensantes.
Referências:
VILLAÇA, Flávio. São
Paulo: segregação urbana e desigualdade. Estudos Avançados, São
Paulo , v. 25, n. 71, Apr. 2011.
JACOBS, Jane. Morte e
Vida de Grandes Cidades. São Paulo: Martins Fontes, 2000
ENGELS, F. Do
socialismo utópico ao socialismo científico. São Paulo: Global, s.
d.
* Juliana M. Dias é
arquiteta, urbanista e ilustradora
Fonte: CARTA CAPITAL

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